Cada vez mais se tem falado sobre esta arte de viver devagar, de saborear o tempo, o espaço onde estamos, quem temos connosco ou de nos saborearmos a nós próprios. O Slow living tem sido tema de artigos, revistas e até livros, e parece ser difícil de entender, num mundo e numa cultura que nos aponta para o lado oposto, viver depressa, fazer o máximo de coisas no mínimo de tempo possível e onde o nosso estado é sempre o de ocupado.

Viver devagar é saborear mais, apreciar cada detalhe. É abrandar, ver mais, ouvir melhor, enquanto todos os outros continuam na frenética corrida para alcançar mais coisas, dinheiro, sucesso ou felicidade. Quem vive devagar sabe que a felicidade já está aqui, ou se não está, somos só nós os responsáveis por trazê-la de volta.

Eu confesso que esta coisa de viver mais devagar já me foi pedida pelo corpo e pela mente há algum tempo. E é por isso que, há já algum tempo, tenho vindo a praticar algumas coisas que me têm trazido a paz necessária para continuar a viver bem e em equilíbrio. Coisas como desligar-me do telefone em viagem, ou abrandar nos fins-de-semana, têm sido postas em prática há vários meses, no entanto a aprendizagem continua e a adaptação a um estilo de vida que me preencha também.
A minha cara metade dos presentes, o meu sócio, ofereceu-me este livro bonito, The Kinfolk Home, cheio de entrevistas a pessoas que optam por este estilo de vida, e são bem sucedidas e felizes. Farei um post só sobre ele, para vos mostrar mais.

Estou ainda longe da perfeição, na gestão do tempo e no controlo do meu humor, ainda tenho dias menos bons e sou muito, muito instável. Mas já estive mais longe de aprender a viver melhor, já me rodeei de coisas mais tóxicas, e hoje posso dizer que já aprendi a viver um bocadinho mais devagar.
Por tudo isto venho deixar-vos algumas dicas, daquelas que já não sou capaz de esquecer, e que vos podem levar a ter dias mais felizes.

1. NÃO AO MULTI TASKING
Fazer muitas coisas ao mesmo tempo não faz de vocês uns seres espectaculares, muito melhor que todos os outros e super produtivos. Tudo aponta para que este salto entre tarefas só nos torne menos focados e eficientes. No meu trabalho enquanto designer já percebi que não dá mesmo e arrependo-me de todos os anos perdidos a tentar ser super produtiva entre e-mails, telefonemas e desenhos.
Isto ou tentar fazer o jantar enquanto faço outra coisa qualquer, que acabava sempre com um tacho queimado. Hoje prefiro escolher uma das tarefas, e só depois de terminada passar para outra. Isto pode significar não olhar para o e-mail durante o dia, ou não ter o telemóvel sempre com som.

2. LEVANTAR CEDO
Se eu era daquelas pessoas que dormia até às 13h se me deixassem, hoje sou daquelas que fica com dores de cabeça se dorme demais. Trabalhar em casa foi sem dúvida o factor de mudança. Ficar na cama até mais tarde só me trazia remorsos, passei a ser incapaz de o fazer, mesmo que pudesse criar o meu horário com liberdade, e por outro lado o sair da cama para não me enfiar logo num autocarro, a caminho do trabalho, também fez com que não me custasse nada sair da cama.
Por isso mesmo, até para quem sai para trabalhar fora, se as primeiras duas horas do dia forem passadas sem correrias, no quentinho da vossa casa, vão ser boas e vai valer a pena estar acordado.

Ainda se sente a calma do dia, podemos aproveitar para tomar um bom pequeno almoço, cheirar o café pela casa, ler, ouvir música ou planear o dia. Eu adoro sair da cama com a casa em silêncio, preparar um pequeno almoço bom e dar ordem à sala que ficou com mantas e almofadas espalhadas na noite anterior.

3. MANTER A CASA ORGANIZADA
Somos todos diferentes, uma casa caótica para uns pode ainda estar habitável para outros, no entanto, eu não acredito muito na possibilidade de viver esta calma (física e espiritual) numa casa desorganizada.
Eu não sou muito arrumada, posso deixar coisas fora do sítio com a maior das facilidades, mas a verdade é que tenho de as ir arrumando e isso sim é um vício. À medida que vou passando pelas coisas vou resolvendo, seja um casaco perdido na sala ou uma chávena de chá deixada no quarto. Criar este hábito de devolver as coisas ao sítio delas é fundamental para mantermos ordem na casa e não deixar que tudo chegue a um estado de caos.
Coisas que tenho mesmo de fazer todos os dias é arrumar a cozinha e ter o balcão limpo, ou arrumar a sala de estar. Depois há divisões onde por mais que arrume nunca dou ordem, o roupeiro ou o escritório. Ando a trabalhar nisso :p

4. DESLIGAR O SMARTPHONE
É a maior das distrações a qualquer altura do dia. Ter uma coisa pequenina, que vai connosco para todo o lado e ontem temos acesso a qualquer informação, pode ser realmente o maior consumidor do nosso tempo. Eu adoro a internet, é também aqui que reside a maior parte do meu trabalho, mas este consumo não pode ser mesmo desmedido.
Já mudei hábitos e, por exemplo, prefiro acordar e saborear a minha manhã, do que começar o dia a ver as manhãs dos outros. Assim foco-me mais no meu tempo, no meu pequeno-almoço, na minha energia e mais tarde posso ficar a saber como foi a de todos os outros que sigo.
À noite também já não passo muito tempo online. Nas noites em que não estou ocupada estou a fazer o jantar, a aproveitar a casa e a companhia que aqui tenho.

5. MENOS É SUFICIENTE
Existe sempre uma urgência em ter mais. Mais dinheiro, mais coisas, mais e mais daquilo que nos vai fazer felizes. O que se vem a perceber é que este mais nunca é suficiente, porque a palavra de ordem continua a ser a mesma, mais.
Não estarmos felizes e realizados com o que temos é mau, principalmente quando de facto não temos o azar de ter grandes problemas na vida, e somos até pessoas de sorte.
Aprender a viver com menos é um exercício importante para aprender a viver devagar. Entender que temos tudo o que precisamos para viver, rodearmo-nos apenas daquilo e daqueles que nos fazem bem, e nada disto tem de ser em grandes porções, tem apenas de estar lá, em quantidade suficiente. Porque os amigos não se precisam às mãos cheias e os vestidos não têm de encher um quarto.

6. VIVER AS ESTAÇÕES
O ano recomeça e nós sentimos que temos uma oportunidade de recomeçar também. É uma sensação boa mas que não acaba aqui. A cada estação do ano há um novo recomeço, uma nova energia, e é por isso que no inverno todos queremos uns raios de sol, e no final do verão já pensamos com saudade nas castanhas, nas mantas e nos chás quentinhos.
Se em vez de nos chatearmos com o mau tempo (digo isto porque começo a ficar farta deste :p) aproveitarmos mesmo aquilo que cada estação tem para nos dar, vamos estar mais felizes, o tempo vai ser bom e vai passar devagar.
Aproveitamos a fruta da época, o tempo e o que podemos fazer com ele e com os nossos amigos. Se no verão podemos ir à praia e fazer lanches no jardim, no inverno podemos fazer um brunch em casa ou jantares quentinhos. Há sempre coisas boas, só não podemos esquecer-nos delas.

Na nossa cultura, onde a prosperidade tem de começar no trabalhar muito, no multitasking, no não ter tempo para nada e estar sempre ocupado, pode até parecer mal dizer que se quer de facto passar a ter uma vida mais calma. No entanto, enganam-se todos aqueles que pensam que viver devagar não significa ter muito trabalho ou compromissos, pelo contrário, o foco acaba por ser maior porque concentramo-nos exactamente no presente, na tarefa que estamos a fazer, seja ela uma reunião, um design de blog, a cozinha que precisa ser arrumada, ou o sofá que precisa só ser ocupado por nós e por uma chávena de café quente. Ao concentrarmo-nos somos mais eficientes, menos distraídos com o que nos rodeia, acabamos mais cedo tarefas, temos assim mais tempo para nós e para todas as outras coisas que gostamos de fazer.

E vocês, já começaram a sentir necessidade de mudar coisas nos vossos hábitos?
Contem-me tudo porque preciso de mais 🙂

Raquel

8 respostas

  1. 🙂 Acho-me muito parecida contigo em muita coisa (mesmo). Vi à uns dias um vídeo dos Pequenos Monstros e adoptei o "o que a minha avó faria?". Sou exactamente como tu, passo a vida a pegar em coisas para arrumar, não suporto ver coisas desarrumadas, detesto multitasking (depois queixem-se dos erros!…) e abomino pessoas que acreditam que uma pessoa stressada é sinónimo de uma pessoa produtiva.

    🙂 mas continuo um work in progress
    beijinho

  2. Gostei muito do post! É verdade, o slow living está na moda e faz todo o sentido, de que nos serve correr sempre atrás da próxima coisa, se não vamos aproveitando a viagem…

  3. Adorei este post que me vai fazer visitar este blogue muitas vezes.
    Eu sinto mesmo muito a necessidade de parar um pouco, desligar-me do mundo virtual e concentrar-me numa coisa de cada vez. Desde que criei um blogue é pior. Quero fazer imensas coisas ao mesmo tempo e acabo por não fazer nada bem. Quase que nem consigo usufruir de 15 minutos sentada sem ter vontade de me levantar e ir fazer mais qualquer coisa.
    Penso que será tudo uma questão de organização e serenidade mental. Acho que tenho que trabalhar um bom bocado para chegar lá mas este texto, sem dúvida, inspirou-me muito.
    E as imagens… maravilhosas!!!!!

  4. Foi o que de melhor me aconteceu nos últimos tempos. Vários acontecimentos na minha vida levaram-me a "desligar" o meu frenesim mental. Acreditas que eu não conseguia ouvir música enquanto estava a editar trabalhos tal era o ruido na minha mente? É tão bom este deixar fluir descomplicado sem culpas nem preocupações. Saborear a vida! 😊

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