10º edição, Porto, 2022

Design & fotografia
criados À medida

workshops & consultoria
para marcas

O Burnout, ou o post mais comprido da história deste blog

Estamos em Abril de 2018, mas venho falar-vos de uma coisa que aconteceu provavelmente em Abril do ano passado, mas que ignorei, fingi não existir, e arrastei até agora achando que era um cansaço comum e um precisar de umas férias decentes, que por vários motivos não puderam acontecer no ano passado. Hoje, tive vontade de vos escrever, coisa que não acontecia há muito, e sei que essa vontade veio do fim-de-semana cheio que tive, na companhia das pessoas maravilhosas que vieram ao nosso workshop e que me reavivaram a memória: gosto do que faço, nem tudo está perdido.

Este post não pretende inspirar ninguém, não pretende ensinar nada a quem o estiver a ler e está aqui em jeito de desabafo. Se houver alguém desse lado que passou pelo mesmo, aí pode servir para me darem uma palavrinha de alento, uma força (preciso de mil agora) e algum ensinamento. Se houver alguém que está a passar pelo mesmo, talvez aí ele seja positivo, mostre que não estamos sozinhos e que somos todos iguais, mesmo quando parece que uns têm a vida mais facilitada que os outros.

Começando assim por uma das pontas, e resumindo muito, muito, muito, eu tenho o trabalho que sempre sonhei ter. Sou designer, coisa que tive como objectivo desde que comecei o meu 10º ano, trabalho por conta própria agora, aos 33, tenho um escritório lindo e todos os dias tenho trabalho em mãos. Apesar de nem sempre ter sido tudo fácil, tem sido bonito e positivo desde 2012 e por isso não me posso queixar da minha sorte.

No ano passado, ainda antes das férias de verão, sentia-me exausta. Hoje, olhando para trás, percebo que ignorei coisas muito pequenas que poderiam ter-me dado pistas. Andava cansada e desmotivada, deixei de ter energia até para convidar amigos para jantar lá em casa, não tive vontade de marcar uma viagem para fora do país (nem para dentro na realidade), e todas as tarefas que tinha para fazer me pareciam difíceis e cansativas.

No ano anterior, em 2016, fiz terapia e com essa ajuda percebi que o excesso de trabalho e preocupações estavam a dominar a minha vida. Aquelas sessões ajudaram-me a entender que era urgente reduzir horários, ter actividades desligadas do trabalho e, mais urgente ainda, perceber que não tinha de temer um drama: deixar de ter trabalho e ir tudo ao charco. Quem trabalha por conta própria vai entender este ponto, nós temos sempre medo, mesmo quando tudo corre bem há anos e quando este medo se baseia em coisas sem sentido.

Fiz aquelas coisas todas que me foram recomendadas, ou pelo menos tentei. Estipulei horários, fiz coisas diferentes que iam para além do trabalho (apesar de hoje saber que não fui bem sucedida) comecei a fazer voluntariado e inscrevi-me no curso que tanto queria fazer logo depois do verão, Design de Interiores. Tive as prometidas férias, duas semanas em que fomos para o Alentejo existir, mas quando voltei, ainda em julho, nada aconteceu como eu tinha planeado. 

As férias foram dias ok e hoje sei que me resolveram o cansaço físico, nada mais que isso. Voltei como tinha ido ou pior ainda, dada a frustração que senti por ter de voltar ao trabalho estoirada, sem energia e sem motivação. Voltei à mão cheia de trabalho, ao curso que começou, aos dias e à rotina que vive de pressa, de urgência e de coisas para ontem. Voltei à dor de cabeça constante, àquela pressão que está aqui e que hoje, de tão presente, me parece uma tortura. Voltei aos serões no sofá, a ver séries com a cabeça lá e cá, no trabalho, nas preocupações, no que deixei por fazer hoje e no que há para fazer amanhã. Percebi que estava cansada mas sabia que até ao final do ano deixava tudo organizado, tirava duas semanas de férias e no início começaria devagar, com mais calma e do zero.

O final do ano chegou, não consegui fazer as duas semanas de férias, não consegui terminar todo o trabalho, não consegui descansar e o sentimento de frustração foi cada vez maior. E claro que as contas são fáceis de fazer. Estando exausta, cada vez produzia menos, cada vez me sentia pior com tudo, cada vez tentava mais e mais e esticava a corda, cada vez tinha mais dores de cabeça, mais dias intermináveis e mais “coisas difíceis” para fazer.

Estiquei a corda até ao mês passado e finalmente, um ano depois, acredito que fiz uma das melhores coisas que poderia ter feito por mim, parar.

Continuar em negação seria só estúpido e por isso resolvi parar a sério. Não vão ser 15 dias de férias, não vai ser um mês de férias, vou parar sem um tempo determinado. Quando o meu corpo me disser que sim eu volto, quando eu sentir aquela vontade de recomeçar eu recomeço. Até lá terei de aprender a controlar esta cabeça que não sabe parar e este corpo que dispara ansiedade dos pés à ponta dos cabelos. Não vou mentir, já estou angustiada com a possibilidade de passar um mês, dois meses, e continuar na mesma, mas quero acreditar que não vai acontecer.

Não é fácil admitir que temos um problema. Dizer que não somos capazes, que estamos fracos, que não conseguimos. Quis muito escrever-vos porque no fim-de-semana passado estive com pessoas que nos vieram conhecer, no workshop, e porque sempre que isto acontece sinto uma urgência em ser honesta, ser o mais transparente que consigo e não pude. Não quero sentir novamente que tenho ali uma coisa que está a acontecer e da qual não posso falar. Não é fácil lidar com isto mas tem de passar a ser.

O Fred continua por aqui, deu-me uma folga gigante, do tamanho da generosidade que temos sempre pronta, um para o outro. Eu quero muito melhorar e sentir a vontade sincera de escrever por aqui mais vezes e de trabalhar nos projectos daqueles que nos escolhem.

Por agora vou existir, vou fazer coisas boas por mim e vou viver a vida de uma senhora reformada aos 33 anos. Isto significa que não larguei o curso, inscrevi-me numa academia de Tai chi, vou fazer bolos mais vezes, vou acabar de ler os livros que aqui andam e continuo a fazer voluntariado, porque sou uma senhora reformada mas bastante interessada na vida.

***

nota 1: as fotos do post são aleatórias, daquelas que estão na pasta das que adoro. como devem compreender não havia energia para escrever tudo isto, fazer fotografias à medida ou ter ainda lata de pedir umas ao sócio.

nota 2: estive no último workshop porque eles são terapia para mim e fazem-me sempre muito bem. estarei também nos próximos e aproveito para enviar um abraço gigante às meninas que estiveram connosco. fizeram-me rir e sorrir no meio de um fim-de-semana de chuva que tinha tudo para ser assim cinzentão, mas não foi 🙂 

nota 3: para terminar, e juro que é agora, um obrigada gigante aos clientes/amigos que foram compreensivos comigo nas últimas semanas, ou no último ano.

Não percas nada!

Sim, isto é uma newsletter! No entanto, prometemos que não vamos encher a vossa caixa de correio com spam. Vão sim, receber os novos cursos em primeira mão, descontos nos workshops e uns freebies de vez em quando.